Acorda! O que houve com você? Não vim aqui para escrever uma crítica, um soneto tão pouco vim para dizer algo importante. Vim para dizer, quiçá, apenas pensar. Sussurrar para alguém as revoltas do meu coração e que esse despeje por ai as aflições e rumores desse pensar, que nesse instante são tão vazios.
Me perco num labirinto de palavras e acabo sempre tropeçando nessas tão insistentes vírgulas. Acorda, já está na hora! E eu que me achava uma pessoa ruim por não conseguir ser alguém, percebo que ser alguém é também ser ninguém. Acorda, já é hora! Me responda: O que você comeu hoje? Por que você atravessou a rua? Por que se faz tanto barulho ao engolir um alimento? São milhares de barulhos que quase sempre me confundem e desviam toda minha atenção para o processo que é engolir.
Besteira? Pois me diga algo sensato? Aguardo! Sim, aqui está: Temperatura de hoje 30 °C, tempo estável na maior parte desse Estado. Estado deplorável de corrupção e uma estabilidade nada confiável por ter estado tão longe do mais importante. O que é o mais importante? Te desafio a descobrir. Caso não saiba, lamento dizer que o fim do mundo está próximo.
Outro dia eu vi na televisão que uma mulher ESQUECEU sua filha de seis meses no carro a uma temperatura superior a 60°C. Não bastasse o ocorrido, essa mulher ainda tinha justificativas. Justificativas do que e pra quem?
No mesmo dia, minha colega de trabalho comentou que faltaram alguns pratos (esses de comer mesmo) na casa dela – tinha um almoço com uns amigos lá. Então, pediu alguns emprestados para a cunhada. Ao devolver, minha colega confundiu os dela com os da cunhada. Os pratos eram muito parecidos. A cunhada ficou furiosa, dizendo: “É por isso que eu não gosto de emprestar as MINHAS COISAS pros outros.” Os demais xingamentos absurdos eu dispenso. Nessa hora minha colega pediu calma e disse: “Eu já vou trocar. Apenas me confundi. Não entendo tua raiva. Parece que tu dá mais importância para esses pratos, que podem quebrar a qualquer momento, do que pra nossa amizade.” E o silêncio então se fez na sala.
Nesse sábado, uma amiga esteve aqui em casa. Ele me contou que esses dias estava no ônibus. As janelas estavam todas fechadas e estava muito abafado. Então ela pediu licença para mulher que sentava ao seu lado e pediu já direcionando o braço: “Posso abrir só um pouquinho, está muito quente aqui.” Num golpe só, a senhora sentada próxima à janela segurou o braço da minha amiga e disse: “Eu estou sentada do lado da janela, portanto eu decido se vou abrir ou não.” É impressionante como as pessoas têm um senso aguçado de propriedade, até mesmo por um lugar no ônibus.
Pois é, alguns se importam mais com pratos outras com poltronas e janelas de ônibus e tem aqueles que se importam com roupas, músculos e badalações. Digo isso, porque esses dias ganhei uns convites do Carlos, um colega jornalista, para ir a uma festa de aniversário de uma revista – South Star. Ele me disse que ia ter vários rangos grátis. Então peguei uns ingressos a mais e convidei uns amigos pra ir jantar lá comigo (bem morta de fome, né). Foi engraçado, pois no caminho descobri que a festa era de uma revista de socialites de Porto Alegre. Era gente com roupa de pena (tipo galinha), de brilho, da moda e tinham os fashions também. Eram vestidos longos, curtos e apertados – uma orgia de grifes. Parece que aquela gente tinha se preparado a vida para estar lá e sair num desses programas medíocres sobre as festas de POA – tipo pampa show, já assistiu? Pois nem se atreva, caso você ainda tenha cérebro.
Mas ao menos comi. E na espera de uma pizza desprovida de animais mortos, conheci Mário, o pizzaiolo. Ele me olhou e perguntou: “Moça, o que esperas?” E eu respondi: “Queria uma pizza sem carne. Tem marguerita?” Ele pediu para eu esperar e voltou: “Não tem, mas posso fazer algo parecido.” Fazendo movimento de sim com a cabeça eu sorri. Mário foi rapidamente providenciar. Certamente, ele percebeu que eu era de marte. Pois estava entre as poucas mulheres quase sem maquiagem, de calça jeans, e blusa preta. Escapei por pouco de não ter ido com meu all star roxo. Antes de sair de casa, pensei: “Minha me mataria se eu colocasse meu all star.” Então como detesto magoá-la, coloquei meu sapato de formatura.
Buenas, a pizza tava pronta e ao tirar do forno ele faz um gesto para mim, pronunciando quase sem som: “É essa a tua pizza”. Peguei uma fatia, acenei e agradeci. Era uma pizza de mussarela com rodelas de tomate e tempero verde. A diferença entre a marguerita e essa pizza era mínima. Um detalhe tão pequeno, mas que muda por completo o sabor. Porém, naquele momento, o manjericão era o que menos importava.
Enfim, voltemos à festa. Na verdade, não gostaria de voltar à festa. Eu ri, me diverti, pois estava com amigos muito bacanas e que também eram de marte. Mas, aquele, definitivamente, não era meu lugar. Bem, não fazer parte é engraçado, porém, nesse caso, um alívio. Mas, cada um escolhe o que é mais importante, meu medo é ter que conviver com quem não sabe escolher muito bem.
Juliana Chaves




