E o acaso?

Eu pensei que não havia mais acasos. Uma vez um grande amigo escreveu: o acaso me abandonou. Eu gostei disso, mas me assustei com o abandono. Certamente, parecia que nada mais poderia me acontencer, nem de ruim nem de bom. Mas, ele estava certo, “o acaso vai sim nos proteger”. Então, hoje acordei tarde, tomei um café com meus pais e sai para comprar uns presentinhos que ainda faltavam. (Não sou muito desse comércio louco de Natal, mas é legal comprar presentes para as pessoas).

Bem, almocei e depois fui a uma oficina sobre como elaborar projetos culturais. Era lá no  no Gasometro. Depois, sem mais nem menos, percebi que eu era a única mulher do curso. E por esse motivo um garoto de quase trinta anos puxou papo comigo. (É bem provável que eu saisse dali sem falar com ninguem). Assim começou o dia de acasos  e descasos com uma dose de loucura básica.

Esse cara via mil coisas em comum entre eu e ele, bem, eu achava graça. Ele me carregou para uma exposição de artes – muito interessante por sinal – chamada Tempestade (a exposição está instalada na Usina do Gasometro em Porto Alegre). E assim me fez ouvir, prestar atenção em cada vídeo da exposição, me contando várias histórias de cada obra. Na última, ele me disse: – Essa seria bom se olhasse por umas duas horas. Nossa! Duas horas era muito tempo pra mim. Mas fiquei um pouco e quando vi que as fotos se repetiam eu me despedi. Segui meu rumo e passando pela Rua da Praia encontrei um lindo colar feito por uma artesã , e assim, comprei mais um presentinho de Natal.

Depois ainda encontrei o André lá no Mercado Público, nisso seguimos nosso barco pra Osvaldo Aranha aonde eu tomaria um suco, bateria um papo e aguardaria o horário da minha aula de dança. Mas os planos mudaram e descemos para Cidade Baixa. Na João Pessoa pegamos mais uma amiga no caminho.

Em um bar, lá estava o acaso. Foi só um abraço apertado que durou horas e horas. Um abraço que queria dizer, um abraço que nem precisava de palavra. Pois bem, não quero mais decifrar o indecifrável. Sei que segui com meus amigos até o chorinho. Sem palavras esse lugar. Música boa, cerveja e muitos amigos. Um lugar do c…

Em alguns minutos, lá estava de novo, o acaso me perseguindo. Entre uma boa conversa e cervejas, algumas declarações inesperadas. E na saída do bar, o acaso nos surpreendeu. Parecia certo ou quem sabe até errado, mas o fato é que o céu estava estrelado. Foi assim, entre os becos e a rua, que o ‘acaso me convidou para dançar’…

Juliana CC

Anúncios

1 comentário

Arquivado em Cotidiano

Fragmentos de um sábado estrelado

Burguesia, Cazuza

Pobre de mim que vim do seio da burguesia

Sou rico mas não sou mesquinho

Eu também cheiro mal

Eu também cheiro mal …

Ando meio desligado, Mutantes

Ando meio desligado

Eu nem sinto meus pés no chão

Olho e não vejo nada

Eu só penso se você me quer…

Solidão que nada, Cazuza

Viver é bom

Nas curvas da estrada

Solidão, que nada

Viver é bom

Partida e chegada

Solidão, que nada

Carpinteiro do Universo, Raul Seixas

O meu egoismo, é tão egoísta,

que o auge do meu egoismo é querer ajudar.

Mas Não sei por que nasci

pra querer ajudar a querer consertar

O que não pode ser…

Não sei pois nasci para isso, e aquilo,

E o inguiço de tanto querer

Carpinteiro do universo inteiro eu sou.

Cazuza

Exagerado, eu sou mesmo exagerado, adoro um amor inventado…

Quase sem querer, Legião Urbana

Mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira,

Mas não sou mais tão criança,

A ponto de saber tudo, saber tudo…

Epitáfio, Titãs

O acaso vai me proteger

Enquanto eu andar distraído

O acaso vai me proteger

Enquanto eu andar…

Cena Beatnik, Nei Lisboa

Já não passa nada

Já nem peço por favor

Eu tô abrindo a estrada

Que chega aonde eu for

Eu tô na madrugada

Tô na chuva pelo calor

Eu tô na luta armada

E o perigo me cercou

E o acaso me deixou na porta da tua casa

Faz silêncio e faz de conta que já me esperava

Que eu tava pra chegar

Pra ficar e pra sumir sem dar explicação

Pra me livrar da prisão

Ou só pra te ouvir dizer que não

Só pra torcer o pé

Descendo a escada

De quem não me quer

Cazuza

Raspas e restos me interessam, me interessam.

Pequenas porções de ilusão,

Mentiras sinceras, me interessam…

Leonor, Mundo Livre S/A

Eu sei que me vês como amigo

Não sabes o quanto me dói

Mas o céu foi feito pros anjos

Juntemos os nossos lençóis

Que os anjos não querem saber de nós

Eu sei que o que  falo é pecado

Na certa vais me condenar

Por ti morreria calado

Mas não posso mais controlar …

Deixe um comentário

Arquivado em Desabafo

Vento desgarrado


Vantagens e desvantagens de ser só. É, eu sou sozinha. Percebi nitidamente isso hoje. Essa minha capacidade de fazer as coisas sem precisar de ninguém, às vezes, me impressiona, às vezes, me apavora e me devora.

Hoje foi mais ou menos assim. Eu procurei em todos os cantos uma forma de não ser só. Mas a solidão me perseguia pelas esquinas, pelas calçadas e ruas. Ela insistia em ficar comigo, até mesmo no meio de tanta gente, em uma festa tão bacana, tão linda e diferente.

É estranho viver novas sensações, novos lugares e ouvir novas músicas  sem poder compartilhar nem a alegria nem a dor. E o mais estranho era minha incapacidade de dialogar com aqueles que ali estavam. Talvez porque eu mal os conheci, talvez nem quis conhecer. Eu até quis, só não consegui. Faltava habilidades comunicativas para cativa-los, portanto, preferi calar as palavras e deixei a solidão fazer de mim o que bem entender.

Ela dançou salsa, bateu palma e cantou música flamenca comigo. A solidão não me largava. Eu até tentei, mas a velha sensação de não fazer parte de lugar nenhum voltou a tomar conta de mim. Talvez esse seja o destino de uma dançarina: a solidão.

Porque sou assim tão desgarrada. Porque não sou calmaria ao invés dessa ventania? Eu não sei bem, mas essa solidão está me sufocando. Eu não consigo escapar, pois andamos cada vez mais próximas. É, sou só, sozinho.

E o que me assusta é que gosto disso na maioria das vezes. Hoje, eu preferia a companhia. Hoje me machucou ser assim, tão dona de mim, tão independente. Hoje me assustou não ter alguém pra me cuidar. E, sabe, eu tive medo até do cara táxi. Eu tive medo dos meus fantasmas e sonhei com a hora de me encontrar com o teclado e o computador para tentar respirar algumas palavras.

Juliana CC

3 Comentários

Arquivado em Desabafo

O que importa para você?

Acorda! O que houve com você? Não vim aqui para escrever uma crítica, um soneto tão pouco vim para dizer algo importante. Vim para dizer, quiçá, apenas pensar. Sussurrar para alguém as revoltas do meu coração e que esse despeje por ai as aflições e rumores desse pensar, que nesse instante são tão vazios.

Me perco num labirinto de palavras e acabo sempre tropeçando nessas tão insistentes vírgulas. Acorda, já está na hora! E eu que me achava uma pessoa ruim por não conseguir ser alguém, percebo que ser alguém é também ser ninguém. Acorda, já é hora! Me responda: O que você comeu hoje? Por que você atravessou a rua? Por que se faz tanto barulho ao engolir um alimento? São milhares de barulhos que quase sempre me confundem e desviam toda minha atenção para o processo que é engolir.

Besteira? Pois me diga algo sensato? Aguardo! Sim, aqui está: Temperatura de hoje 30 °C, tempo estável na maior parte desse Estado. Estado deplorável de corrupção e uma estabilidade nada confiável por ter estado tão longe do mais importante. O que é o mais importante? Te desafio a descobrir. Caso não saiba, lamento dizer que o fim do mundo está próximo.

Outro dia eu vi na televisão que uma mulher ESQUECEU sua filha de seis meses no carro a uma temperatura superior a 60°C. Não bastasse o ocorrido, essa mulher ainda tinha justificativas. Justificativas do que e pra quem?

No mesmo dia, minha colega de trabalho comentou que faltaram alguns pratos (esses de comer mesmo) na casa dela – tinha um almoço com uns amigos lá. Então, pediu alguns emprestados para a cunhada. Ao devolver, minha colega confundiu os dela com os da cunhada. Os pratos eram muito parecidos. A cunhada ficou furiosa, dizendo: “É por isso que eu não gosto de emprestar as MINHAS COISAS pros outros.” Os demais xingamentos absurdos eu dispenso. Nessa hora minha colega pediu calma e disse: “Eu já vou trocar. Apenas me confundi. Não entendo tua raiva. Parece que tu dá mais importância para esses pratos, que podem quebrar a qualquer momento, do que pra nossa amizade.” E o silêncio então se fez na sala.

Nesse sábado, uma amiga esteve aqui em casa. Ele me contou que esses dias estava no ônibus. As janelas estavam todas fechadas e estava muito abafado. Então ela pediu licença para mulher que sentava ao seu lado e pediu já direcionando o braço: “Posso abrir só um pouquinho, está muito quente aqui.” Num golpe só, a senhora sentada próxima à janela segurou o braço da minha amiga e disse: “Eu estou sentada do lado da janela, portanto eu decido se vou abrir ou não.” É impressionante como as pessoas têm um senso aguçado de propriedade, até mesmo por um lugar no ônibus.

Pois é, alguns se importam mais com pratos outras com poltronas e janelas de ônibus e tem aqueles que se importam com roupas, músculos e badalações. Digo isso, porque esses dias ganhei uns convites do Carlos, um colega jornalista, para ir a uma festa de aniversário de uma revista – South Star. Ele me disse que ia ter vários rangos grátis. Então peguei uns ingressos a mais e convidei uns amigos pra ir jantar lá comigo (bem morta de fome, né). Foi engraçado, pois no caminho descobri que a festa era de uma revista de socialites de Porto Alegre. Era gente com roupa de pena (tipo galinha), de brilho, da moda e tinham os fashions também. Eram vestidos longos, curtos e apertados – uma orgia de grifes. Parece que aquela gente tinha se preparado a vida para estar lá e sair num desses programas medíocres sobre as festas de POA – tipo pampa show, já assistiu? Pois nem se atreva, caso você ainda tenha cérebro.

Mas ao menos comi. E na espera de uma pizza desprovida de animais mortos, conheci Mário, o pizzaiolo. Ele me olhou e perguntou: “Moça, o que esperas?” E eu respondi: “Queria uma pizza sem carne. Tem marguerita?” Ele pediu para eu esperar e voltou: “Não tem, mas posso fazer algo parecido.” Fazendo movimento de sim com a cabeça eu sorri. Mário foi rapidamente providenciar. Certamente, ele percebeu que eu era de marte. Pois estava entre as poucas mulheres quase sem maquiagem, de calça jeans, e blusa preta. Escapei por pouco de não ter ido com meu all star roxo. Antes de sair de casa, pensei: “Minha me mataria se eu colocasse meu all star.” Então como detesto magoá-la, coloquei meu sapato de formatura.

Buenas, a pizza tava pronta e ao tirar do forno ele faz um gesto para mim, pronunciando quase sem som: “É essa a tua pizza”. Peguei uma fatia, acenei e agradeci. Era uma pizza de mussarela com rodelas de tomate e tempero verde. A diferença entre a marguerita e essa pizza era mínima. Um detalhe tão pequeno, mas que muda por completo o sabor. Porém, naquele momento, o manjericão era o que menos importava.

Enfim, voltemos à festa. Na verdade, não gostaria de voltar à festa. Eu ri, me diverti, pois estava com amigos muito bacanas e que também eram de marte. Mas, aquele, definitivamente, não era meu lugar. Bem, não fazer parte é engraçado, porém, nesse caso, um alívio. Mas, cada um escolhe o que é mais importante, meu medo é ter que conviver com quem não sabe escolher muito bem.

Juliana Chaves

4 Comentários

Arquivado em Desabafo

Verde de novo

Se ser imatura é sentir

Se ser maduro é ser cruel

Se ser pragmático é ser medíocre

E ser shakespeareana é ser inteira

Ser maduro é mentir

Se ser imatura é respeitar

Se ser prático é ignorar

Se ser romântica é doar-se

Se ser maduro é apodrecer

Se ser imatura é cuidar

Se ser imatura é querer atenção

Se ser maduro é negar atenção

Se ser prático é ser superior

Se imatura é ser de verdade

Se ser maduro é negar a verdade

Prefiro ficar verde, verdinha assim,  por toda eternidade…

3 Comentários

Arquivado em Desabafo, Poesia

Um casaco verde e estranho

Olhos úmidos. Assim eram os olhos daquela moça. Quando entrou no ônibus ela olhava para o chão, não encarava o olhar de ninguém, mesmo quando falava, ela evitava o encontro de qualquer outro olhar. A moça desceu no primeiro shopping da cidade. Ela vestia um casaco verde e no pescoço, havia um lenço multicolorido. Eu também entrei no mesmo shopping. Aqueles olhos ainda úmidos tomaram-me de curiosidade. O queixo da moça de casaco verde tremia, mas tremia de forma impedida, como se ela não o pudesse tremer livremente.

Com determinação, ela comprou um ingresso para o cinema. Esperei um pouco para não ser notado. Logo, também entrei na sala escura. Mal começou o filme, ainda nos trailers, a moça liberou a umidade concentrada nos seus olhos. Pensei naquele momento que os olhos daquela moça de casaco verde guardaram o dia inteiro aquelas lágrimas. Por isso a umidade curiosa daquele olhar. Eram negros aqueles olhos encharcados. O filme começou. Um documentário sobre poesia e música brasileira. Pensei que a moça inundaria a sala de cinema. Mas não. Aos poucos, seu olhar se transformava. As letras das músicas e dos poemas confortavam a moça, de tal forma que, nem mesmo ela acreditava. Pensei que ela nunca mais fosse chorar.

Ela saiu do cinema. Depois de todo o roll, depois dos agradecimentos, olhou no celular, guardou-o novamente na bolsa e levantou da poltrona. Seus passos eram lentos, ouvi-a pedir uma informação, a voz era calma, ela tinha uma voz aveludada, eu tive até vontade de deitar e dormir encostado no veludo daquela voz. E aquele casaco verde, eu nunca vi tal casaco antes. Ele parecia ter sido confeccionado especialmente para aquela moça.

Eu me perdi em devaneios e nem a vi ir embora. Fui para parada de ônibus. O ônibus demorava e tava um frio inesperado. Eu lembrava do casaco verde. Dos olhos úmidos. Pensei, será que amanhã os olhos daquela moça voltariam a ficar úmidos? Eu espero que sim.

longe de ti

Juliana CC

2 Comentários

Arquivado em Contos

Alma feminina

O Chico se supera nessa música. Todas as suas facetas femininas estão explicitas nessa letra. Além de ser uma das canções mais eróticas que já ouvi…

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized, Vídeos